Cooperativismo
e sindicatos no Brasil.
SINGER, Paul
(In: CUT BRASIL.
Sindicalismo e economia solidária: reflexões sobre o projeto da CUT. São Paulo:
CUT, 1999. p. 23-28).
Paul Singer é professor da USP e
Coordenador do Grupo de Trabalho de Economia Solidária da Unitrabalho.
O cooperativismo
nasceu na Inglaterra, no final do século XVI, quando teve início a revolução
industrial. Os trabalhadores das manufaturas, na época, eram qualificados e
possuíam associações de ofício que controlavam o exercício profissional.. Com a
introdução das máquinas, estes trabalhadores começaram a sofrer a competição de
fábricas, que empregavam pessoas não qualificadas, geralmente egressas do
campo. Os produtos industriais eram mais baratos do que os artesanais, de modo
que em pouco tempo os trabalhadores manufatureiros ficavam sem trabalho.
As associações
fizeram de tudo para impedir que as máquinas tirassem o ganha-pão de seus
membros, mas, debalde ações clandestinas violentas – como a queima das fábricas
– foram reprimidas com vigor. Ao mesmo tempo, Robert Owen, um dos pais do
socialismo, começou a pregar que a indústria em si é benéfica, ao baratear os
bens de consumo, mas que ela deveria ser colocada sob o controle dos
trabalhadores e que os resultados do trabalho em comum deveriam ser repartidos
equanimemente. Ele propunha que ao redor das fábricas se formassem aldeias
cooperativas, em que os meios de produção seriam possuídos e geridos
coletivamente. Durante sua longa vida, Owen criou aldeias com este caráter, uma
nos Estados Unidos e as demais na Inglaterra.
Na terceira década do
século passado, o “owenismo” tornou-se um movimento de massas na Inglaterra e
passou a inspirar o nascente movimento das trade-unions. Owen assumiu a
liderança das lutas operárias e orientou os sindicatos a formar cooperativas de
produção cada vez que fizessem greves, tendo em vista tomar o mercado dos
capitalistas. Nesta época, centenas de cooperativas foram formadas e em
diversas ocasiões os sindicatos tentaram levar a cabo a estratégia de Owen. A
classe capitalista reagiu desencadeando violenta ofensiva contra as
organizações dos trabalhadores: fizeram ‘lock-outs’ para expulsar os
trabalhadores owenistas das empresas, organizaram listas negras contra o
emprego de ativistas sindicais e obrigaram os empregados a assinar uma promessa
de jamais se filiar a um sindicato.
Com isso, parte dos
sindicatos teve de fechar e outros passaram à clandestinidade. Como declínio do
movimento operário, provavelmente muitas cooperativas também encerraram suas
atividades. Mas, em 1844, um pequeno número de trabalhadores industriais fundou
em Rochdale, um importante centro têxtil, uma cooperativa de consumo que eles
chamaram “A Sociedade dos Pioneiros Eqüitativos”. Eram todos militantes
operários owenistas ou cartistas (partidários dum grande movimento de massa na
época, que lutava pelo sufrágio universal masculino). Eles adotaram oito
princípios, que provavelmente decorriam da experiência das duas ou três décadas
anteriores de cooperativismo.
Em resumo estes
princípios eram os seguintes: 1º) a Sociedade seria governada democraticamente,
cada sócio dispondo de um voto; 2º) a Sociedade seria aberta a quem dela
quisesse participar, desde que integrasse uma quota de capital mínima e igual
para todos; 3º) qualquer dinheiro a mais investido na cooperativa seria
remunerado por uma taxa de juros, mas não daria ao seu possuidor qualquer
direito adicional de decisão; 4º) tudo o que sobrasse da receita, deduzidas
todas as despesas, inclusive juros, seria distribuído entre os sócios em
proporção às compras que fizessem da cooperativa; 5º) todas as vendas seriam à
vista; 6º) os produtos vendidos seriam sempre puros e de boa qualidade; 7º) a
Sociedade deveria promover a educação dos sócios nos princípios do cooperativismo;
e 8º) a Sociedade seria neutra política e religiosamente.
Aplicando estes
princípios, a Sociedade dos Pioneiros de Rochdale cresceu imensamente,
alcançando dezenas de milhares de sócios. Representando um importante mercado
consumidor, os Pioneiros fundaram diversas cooperativas de produção: fábrica de
sapatos e tamancos, fiação e tecelagem, uma cooperativa de habitação e uma
sociedade de beneficência, que prestava assistência à saúde. O exemplo de
Rochdale se irradiou pela Inglaterra e mais tarde por outros países. Numerosas
cooperativas foram fundadas à base daqueles princípios. Hoje, a cooperativa de
Rochdale é considerada a mãe de todas as cooperativas.
O cooperativismo
surgiu em outros países, notadamente na França, na mesma época, sempre ligado
às lutas operárias. Na Alemanha foram desenvolvidas cooperativas de crédito
rurais e urbanas, seguindo modelos diferentes, mas aplicando os mesmos
princípios. Finalmente, em 1895, fundou-se a Aliança Cooperativa Internacional,
que desde então congrega as entidades cooperativas de todos os países do mundo.
