SINGER, Paul
(In: CUT BRASIL.
Sindicalismo e economia solidária: reflexões sobre o projeto da CUT. São Paulo:
CUT, 1999. p. 23-28).
Paul Singer é professor da USP e
Coordenador do Grupo de Trabalho de Economia Solidária da Unitrabalho.
O novo cooperativismo
toma forma mais diversificada em nosso país: empresas autogeridas, muitas delas
agrupadas na ANTEAG – Associação Nacional de Trabalhadores de empresas
Autogeridas e de Participação Acionária ou então na Associação Brasileira de
Autogestão; pequenas e médias associações ou cooperativas de produção ou
comercialização, chamados PACs – Projetos Alternativos Comunitários, formados
com o apoio da Caritas; cooperativas “agropecuárias” – na classificação acima,
cooperativas de produção – formadas pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem
Terra nos assentamentos de reforma agrária; cooperativas de serviços, formadas
por Incubadoras Tecnológicas de Cooperativas Populares; cooperativas de
serviços de diversos tamanhos, boa parte agrupada nas Federações de
Cooperativas de Trabalho estaduais.
Este levantamento
está longe de ser geral, mas representa os movimentos e organizações que já se
colocaram em contato e que se inseriram numa confluência de propósitos que deve
levar à consolidação comercial e financeira da economia solidária no Brasil e,
possivelmente, em prazo um pouco maior à formação duma frente
político-parlamentar de apoio ao novo cooperativismo no Brasil.
O novo cooperativismo
surge num momento em que a abertura indiscriminada do mercado às importações, a
sobrevalorização da moeda nacional e taxas de juros elevadíssimas produziram a
eliminação de milhões de postos de trabalho formal e o fechamento de grande
número de empresas. Uma forma de luta para preservar postos de trabalho tem
sido obter a transferência aos trabalhadores de empresas falidas ou em vias de
falir. Como representantes legais dos assalariados, os sindicatos têm tomado a
frente nestas lutas. Cresce o tempo todo o número de empresas pequenas, médias
e grandes, a maioria industrias mas também agrícolas e de mineração, que foram
reabilitadas e estão funcionando de forma autogerida, como cooperativas ou
associações. 52 delas, com 15.000 pessoas ocupadas estão na ANTEAG.
Uma luta semelhante é
levada pelos trabalhadores rurais filiados ao MST e à CUT, quando ocupam terras
improdutivas e exigem que sejam desapropriadas e entregues aos sem-terra. Nos
assentamentos de reforma agrária, uma forma cada vez mais freqüente de
organizar a produção é a de cooperativas, tanto de comercialização como de
produção. O MST mantém inclusive uma escola em que jovens de todos os
assentamentos se formam como “técnicos de cooperativismo”.
Um dos maiores
obstáculos à difusão do cooperativismo ou, de forma mais ampla, da economia
solidária[1] é
a falta de cultura cooperativa entre nossos trabalhadores. São conhecidos os
mutirões, mas carecemos de habilidade de criar empresas democráticas e
igualitárias que sejam ao mesmo tempo aptas a competir nos mercados. Está
habilidade está sendo forjada agora, nas empresas autogeridas e sua difusão
está sendo promovida por várias entidades, como a ANTEAG, o MST, o NAPES
(Núcleo de Ação e Pesquisa de Economia de Solidariedade) e uma dezena de
Incubadoras Tecnológicas de Cooperativas Populares, criadas nas maiores
universidades do país.
A economia solidária
enquanto realidade concreta alternativa ao capitalismo está sendo construída no
Brasil, apesar de todas as dificuldades. Não resta dúvida que esta construção
já fez progressos imensos nos últimos anos e está ganhando cada vez mais apoio
nas universidades, nos meios de comunicação e nos governos estaduais e
municipais. Diversos governos já contrataram a ANTEAG e Incubadora para apoiar
e suscitar a criação de novas cooperativas ou associações, tendo em vista
sobretudo gerar trabalho e renda. É fundamental, no entanto, que as centrais sindicais
se envolvam mais nesta batalha, que é de interesse vital para toda a classe
trabalhadora.
É necessário que os
sindicatos acolham em seus quadros cooperadores da mesma forma que
trabalhadores assalariados. O trabalho assalariado formal está diminuindo
rapidamente no Brasil, o que debilita a representatividade dos sindicatos e os
enfraquece. Interessa a todos os trabalhadores o aumento do emprego assalariado
e do auto-emprego coletivo, para que mais e mais pessoas saiam do exército de
desempregados e se restabeleça algum equilíbrio entre oferta e procura no
mercado de trabalho.Unidos, empregados e auto-empregados têm interesse em que
melhore a remuneração dos trabalhadores assalariados porque isso permite que os
auto-empregados coletivos também cobrem mais pelos seus produtos e serviços.
Sindicatos e
cooperativas surgiram das mesmas lutas. Os sindicatos têm uma importante
contribuição que já é uma realidade para a difusão do novo cooperativismo.
Ampliar esta contribuição é urgente para reforçar o combate comum ao
neoliberalismo, à perda de emprego formal e dos direitos conquistados.
[1] Entendemos
por economia solidária toda a forma de organizar a produção, a distribuição e o
crédito por princípios solidários. Entre estas formas, as cooperativas são as
mais antigas e melhor conhecidas, mas a elas somam-se outras, como os ‘clubes
de trocas’ (formados por pequenos produtores, que usam de moeda própria para
intensificar o intercâmbio entre eles) e os ‘bancos do povo’ (cooperativas de
crédito dirigidos aos mais pobres, cujo crédito é garantido pelo compromisso
solidário de grupos formados com este fim).

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