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segunda-feira, 1 de outubro de 2012

O novo cooperativismo no Brasil (Pt03)

SINGER, Paul
(In: CUT BRASIL. Sindicalismo e economia solidária: reflexões sobre o projeto da CUT. São Paulo: CUT, 1999. p. 23-28).
Paul Singer é professor da USP e Coordenador do Grupo de Trabalho de Economia Solidária da Unitrabalho.

O novo cooperativismo toma forma mais diversificada em nosso país: empresas autogeridas, muitas delas agrupadas na ANTEAG – Associação Nacional de Trabalhadores de empresas Autogeridas e de Participação Acionária ou então na Associação Brasileira de Autogestão; pequenas e médias associações ou cooperativas de produção ou comercialização, chamados PACs – Projetos Alternativos Comunitários, formados com o apoio da Caritas; cooperativas “agropecuárias” – na classificação acima, cooperativas de produção – formadas pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra nos assentamentos de reforma agrária; cooperativas de serviços, formadas por Incubadoras Tecnológicas de Cooperativas Populares; cooperativas de serviços de diversos tamanhos, boa parte agrupada nas Federações de Cooperativas de Trabalho estaduais.
Este levantamento está longe de ser geral, mas representa os movimentos e organizações que já se colocaram em contato e que se inseriram numa confluência de propósitos que deve levar à consolidação comercial e financeira da economia solidária no Brasil e, possivelmente, em prazo um pouco maior à formação duma frente político-parlamentar de apoio ao novo cooperativismo no Brasil.
O novo cooperativismo surge num momento em que a abertura indiscriminada do mercado às importações, a sobrevalorização da moeda nacional e taxas de juros elevadíssimas produziram a eliminação de milhões de postos de trabalho formal e o fechamento de grande número de empresas. Uma forma de luta para preservar postos de trabalho tem sido obter a transferência aos trabalhadores de empresas falidas ou em vias de falir. Como representantes legais dos assalariados, os sindicatos têm tomado a frente nestas lutas. Cresce o tempo todo o número de empresas pequenas, médias e grandes, a maioria industrias mas também agrícolas e de mineração, que foram reabilitadas e estão funcionando de forma autogerida, como cooperativas ou associações. 52 delas, com 15.000 pessoas ocupadas estão na ANTEAG.
Uma luta semelhante é levada pelos trabalhadores rurais filiados ao MST e à CUT, quando ocupam terras improdutivas e exigem que sejam desapropriadas e entregues aos sem-terra. Nos assentamentos de reforma agrária, uma forma cada vez mais freqüente de organizar a produção é a de cooperativas, tanto de comercialização como de produção. O MST mantém inclusive uma escola em que jovens de todos os assentamentos se formam como “técnicos de cooperativismo”.
Um dos maiores obstáculos à difusão do cooperativismo ou, de forma mais ampla, da economia solidária[1] é a falta de cultura cooperativa entre nossos trabalhadores. São conhecidos os mutirões, mas carecemos de habilidade de criar empresas democráticas e igualitárias que sejam ao mesmo tempo aptas a competir nos mercados. Está habilidade está sendo forjada agora, nas empresas autogeridas e sua difusão está sendo promovida por várias entidades, como a ANTEAG, o MST, o NAPES (Núcleo de Ação e Pesquisa de Economia de Solidariedade) e uma dezena de Incubadoras Tecnológicas de Cooperativas Populares, criadas nas maiores universidades do país.
A economia solidária enquanto realidade concreta alternativa ao capitalismo está sendo construída no Brasil, apesar de todas as dificuldades. Não resta dúvida que esta construção já fez progressos imensos nos últimos anos e está ganhando cada vez mais apoio nas universidades, nos meios de comunicação e nos governos estaduais e municipais. Diversos governos já contrataram a ANTEAG e Incubadora para apoiar e suscitar a criação de novas cooperativas ou associações, tendo em vista sobretudo gerar trabalho e renda. É fundamental, no entanto, que as centrais sindicais se envolvam mais nesta batalha, que é de interesse vital para toda a classe trabalhadora.
É necessário que os sindicatos acolham em seus quadros cooperadores da mesma forma que trabalhadores assalariados. O trabalho assalariado formal está diminuindo rapidamente no Brasil, o que debilita a representatividade dos sindicatos e os enfraquece. Interessa a todos os trabalhadores o aumento do emprego assalariado e do auto-emprego coletivo, para que mais e mais pessoas saiam do exército de desempregados e se restabeleça algum equilíbrio entre oferta e procura no mercado de trabalho.Unidos, empregados e auto-empregados têm interesse em que melhore a remuneração dos trabalhadores assalariados porque isso permite que os auto-empregados coletivos também cobrem mais pelos seus produtos e serviços.
Sindicatos e cooperativas surgiram das mesmas lutas. Os sindicatos têm uma importante contribuição que já é uma realidade para a difusão do novo cooperativismo. Ampliar esta contribuição é urgente para reforçar o combate comum ao neoliberalismo, à perda de emprego formal e dos direitos conquistados.




[1] Entendemos por economia solidária toda a forma de organizar a produção, a distribuição e o crédito por princípios solidários. Entre estas formas, as cooperativas são as mais antigas e melhor conhecidas, mas a elas somam-se outras, como os ‘clubes de trocas’ (formados por pequenos produtores, que usam de moeda própria para intensificar o intercâmbio entre eles) e os ‘bancos do povo’ (cooperativas de crédito dirigidos aos mais pobres, cujo crédito é garantido pelo compromisso solidário de grupos formados com este fim).

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